O lavador de carros

Meus irmãos, o que adianta alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Poderá a fé salvá-lo? Se o irmão ou irmã não tiverem o que vestir e precisarem do alimento de cada dia e alguém de vós lhes disser: "Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos", mas não lhes der o necessário para o corpo, o que adiantaria? Assim também a fé, se não tiver obras, está morta em si mesma. Tg 2:14-17


Conheço um homem mais novo do que eu e que parece ter 15 anos a mais. Sua boca quase não tem dentes e seu apelido entre os colegas de rua é "boca murcha". Recentemente, perguntei seu verdadeiro nome: Edson. É lavador de carros e mora em algum beco perto do estacionamento de um dos ministérios da Esplanada. Nossa conversa sempre vai bem até o Senhor entrar nela. Edson começa a falar chorando, fica exaltado. Não compreende que precisa parar de andar com prostitutas, de beber cachaça, de tagarelar asneiras, de murmurar e de brigar. "Vivo pela graça de Deus que ama seus filhos e que levará a todos para o céu". Edson não apenas acredita que viverá a Eternidade com o Pai mas também crê que o Inferno não existe. Lembro de passagens nas Escrituras em que o Inferno é mecionado. Ele retruca. Diz que são "parábolas, parábolas". Em resumo, "boca murcha" não quer obedecer. Prefere continuar lavando carros (e mal, diga-se de passagem) a dobrar os joelhos. Prefere manter-se na humilhação e a choramingar sua condição social a "comer" as Escrituras e a cumprir os planos do Pai. Aconchegou-se às próprias conclusões (como a de que o Inferno não existe e de que será salvo mesmo em pecado). Prefere seguir as próprias ideias a examinar a Verdade transmitida pelo Filho sob a ordem do Pai. Não sei se Edson irá para o Inferno. Deus pode mudar sua vida, como mudou a minha. A pergunta é mais simples: será que ele quer que alguma coisa mude em sua vida?

Rejeitar ou Amar

O que faremos com a Verdade da Palavra do Senhor?

Os líderes religiosos judeus a rejeitaram e levaram nessa rejeição consigo o povo. Aqueles que acreditaram nas palavras de Jesus eram hostilizados. "Quanto a esta plebe que nada sabe da Lei, é maldita", diziam os principais dos sacerdotes (João 7:49). Acabaram todos, líderes e plebe, matando o próprio Autor da nossa Salvação. "Crucifica-o, crucifica-o" (João 19:15), diziam a Pilatos.

Muitos, no entanto, adoraram Jesus e confiaram na mensagem da Vida Eterna. Estavam dispostos a acreditar, foram capazes de ouvir a Palavra do Cristo. O cego de nascença que lavou o rosto no Tanque de Siloé depois de tratado por Jesus respondeu corretamente à pergunta do Cristo: "Crês tu no Filho do Homem?" Então, afirmou ele: Creio Senhor; e O adorou" (João 9:36).

Os samaritanos, alertados pela mulher que encontrou Jesus no poço de Jacó, também creram. "Vindo, pois, os samaritanos ter com Jesus, pediram-lhe que permanecesse com eles; e ficou ali dois dias. Muitos outros creram nele, por causa da sua palavra, e diziam à mulher: já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo. (João 4:40-42)

Muitos rejeitaram a Verdade mas há os que creram nela, conforme vários exemplos descritos nos evangelhos. Podemos rechaçar Jesus por causa do nosso orgulho e vaidade. Podemos ignorá-lo porque não queremos perder o poder que temos sobre nossas próprias vidas. E podemos fazer como muitos fizeram: seguiram Cristo por causa dos milagres e por que Ele os saciava a fome. É preciso, porém, termos capacidade para ouvir lembrando das palavras ditas pelo Senhor a Pilatos: "Todo aquele que é da Verdade ouve a minha voz" (João 18:37).

E nós? Somos da Verdade ou seguiremos os passos dos que negligenciaram a mensagem, não creram nela e mataram o Salvador? De que lado estaremos?

Uma pergunta e uma resposta

"Ele porém respondeu: Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!" Lc 11:28

Depois de Jesus ter dito a Pilatos que Ele nasceu e veio ao mundo para dar o testemunho da verdade, o governador romano na Palestina perguntou: "o que é a verdade"? O Capítulo 18 de João onde esse diálogo pode ser lido não nos revela qual foi a resposta de Jesus. O evangelho conta que após essa pergunta, "Pilatos voltou aos judeus e lhes disse: eu não acho nele crime algum" (versículo 38). Por algum motivo, Pilatos não aguardou a resposta ou ela foi dada sem que chegasse até nós o seu conteúdo.

O importante, porém, é que podemos responder a Pilatos a partir das próprias Escrituras. Jesus em sua passagem pela Terra deixou vários ensinamentos a esse respeito. Afinal, o que é a verdade?

No capítulo anterior a esse, no mesmo evangelho de João, durante a oração que Jesus faz ao Pai em favor de seus discípulos, Ele diz: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade" (versículo 17). Se a palavra de Deus é a verdade, precisamos ouvi-la para que sejamos verdadeiramente filhos de Deus. Afinal "todo aquele que é da verdade ouve a minha voz". Em outras palavras, todos os que ouvem e seguem a verdade dita pelo Senhor (Pai e Filho) estão em comunhão com ele.

Portanto, a Palavra de Deus é a Verdade. E não basta para o cristão ouvi-la. É preciso guardá-la e praticá-la. Lembremos do que João em sua primeira carta fala: "Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade" (I Jo 1:6).

Verdade e Palavra do Senhor são sinônimos. Como responderemos a Jesus quanto a isso? Pilatos não quis ouvir o que é a verdade. E nós, estamos prontos para ouvir, entender e praticá-la?

O que faremos com Jesus?

Pilatos, a principal autoridade de Roma sobre a Judéia ocupada pelo Império, nunca quis autorizar a morte de Jesus. Por três vezes, em aproximadamente uma hora, no início daquela manhã de sexta-feira que antecedia a Páscoa judaica, ele deixou claro aos seus interlocutores que não via crime algum em Cristo. Num primeiro momento, Pilatos tentou livrar-se do problema sugerindo aos líderes religiosos que julgassem o prisioneiro no Sinédrio. Ele não queria tornar Roma responsável pela crucificação de alguém que ele julgava inocente. Tentou fazer com que a questão fosse resolvida no âmbito das leis do povo dominado. Ele estava realmente fora da massa de acusadores totalmente convulsionada e ansiosa por matar o Cristo.

O ódio dos sacerdotes e líderes por Jesus exigia uma condenação pública e sob a tutela do estado romano. O embate de Pilatos e os judeus por isso foi intenso e o governador tentou várias saídas para Roma quando, finalmente confrontado e sob a ameaça de um levante popular, aceitou entregar Jesus aos que clamavam por sua morte. Pilatos perdeu porque teve medo de perder o poder. Pilatos recuou porque os judeus o ameaçaram com a seguinte possibilidade: se você (Pilatos) absolvê-lo (Jesus), estará confrontando o Imperador porque quem se faz Rei está agindo em oposição ao César.

Apesar de sua atuação pouco nobre em todo o episódio, Pilatos hesitou em matar aquele que poderia, para ele, ser de fato o filho de Deus. Quando os sacerdotes disseram a Pilatos que Jesus se fazia filho de Deus, os relatos dos evangelhos nos mostram que ele ficou muito assustado, quase em pânico. E isso ocorreu porque Jesus já havia dito ao governador qual era o seu reino e por qual razão havia nascido e vindo ao mundo. Quando ouviu dos líderes judeus que Jesus se dizia filho de Deus, Pilatos imediatamente lembrou e associou essa acusação ao que o próprio Cristo o havia dito. Pela primeira vez, Pilatos percebeu que poderia estar diante do Redentor em pessoa. Daí o temor de mandar para Cruz aquele homem que não era apenas um homem: era Deus.

Tanto é que logo após ter ouvido o que ouviu dos judeus, Pilatos volta a entrevistar Jesus pela segunda vez. E logo vai perguntando ao Filho de onde ele vem. É a primeira vez que Pilatos faz a pergunta, que poderia ter sido feita no primeiro diálogo mas que aqui ganha outros contornos. Pilatos não quer saber se Jesus vem de Nazaré, Betânia ou de Belém ou ainda da própria Jerusalém. Pilatos quer saber se Jesus vem do Céu!

Apesar dessa assombrosa constatação, a maior a que pode chegar um ser humano, Pilatos não se rendeu ao Senhor. A ameaça de perder o poder falará mais alto e ele entregará Jesus em alguns minutos, não sem antes lavar as mãos, numa patética demonstração de covardia. Pilatos estava a dizer: se querem matar o Filho, eu deixo, porém, sem ser responsável por sua morte. Sua ação ou falta de ação de nada adiantou. Ele fez a pior opção, a mesma que milhares de seres humanos têm feito ao longo de 2011 anos. Entre as coisas terrenas e as bençãos celestiais, o governador ficou com as primeiras.

E nós, o que faremos com Jesus? Estamos dispostos a nos despojar de tudo para segui-LO? Ou faremos como Pilatos e lavaremos as mãos para seguir no poder das coisas dessa vida? Pilatos não pagou o preço. E nós, vamos pagar? Qual será nosso diálogo com Jesus? Pilatos já teve o dele. Estamos preparados para o nosso?


PRIMEIRO DIÁLOGO

Pilatos - És tu o Rei dos Judeus?
Jesus - Perguntas por ti mesmo ou foram os outros que te disseram isto de mim?

Pilatos - Por acaso sou judeu? A tua nação e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. O que fizeste?
Jesus - Meu reino não é deste mundo, se fosse deste mundo, os meus ministros teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui.

Pilatos - Logo, tu és rei?!
Jesus - Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.

Pilatos - O que é a verdade?

JESUS É AÇOITADO

SEGUNDO DIÁLOGO

Pilatos - Donde és tu?
Jesus - ...

Pilatos - Tu não me respondes? Não sabes que tenho poder para te soltar e poder para te crucificar?
Jesus - Não terias nenhum poder sobre mim se não te fosse dado do alto. Por isso, quem me entregou a ti tem pecado maior

João 18:29-38
João 19:8-12

Caprichos e paixões

"Vos estáveis mortos por vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo a maneira de viver deste mundo, sob o espírito que atua nos filhos rebeldes. Antigamente todos nós éramos como eles. Vivíamos nos desejos da carne, satisfazendo seus caprichos e paixões. Éramos por natureza como os outros, destinados à ira" Ef 2:1-3

No início do segundo capítulo da carta aos efésios, Paulo define bem duas categorias de homens: os que andam na Verdade e deixaram "a maneira de viver deste mundo" e os que permaneceram "satisfazendo seus caprichos e paixões".

Todo homem precisa deixar de viver em oposição a Cristo. Essa passagem da mente carnal para a mente espiritual é o mais fantástico fenômeno possível. É nele que se concentra Paulo aqui. Ele diz que os cristãos estavam mortos por conta do pecado e da nossa vida de outrora, de inimizade com o Senhor. Mais adiante ele explode em alegria pois em Cristo Jesus somos ressuscitados nos assentando nos céus e inaugurando uma nova vida.

Quanto devemos ao Senhor por termos podido deixar os caprichos e as paixões deste mundo para viver em comunhão com Ele, como filhos da Luz.